ÉVORA MINHA CIDADE

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A MINHA ALDEIA

 

 

Há 57 anos que eu nasci numa bem pequenina aldeia do Alto Alentejo; era nessa altura uma aldeia onde todos eram uma família, de grandes corações e bondade, e muito mais pois que ainda hoje eu sinto uma tão grande saudade que não tenho palavras para poder traduzir os meus sentimentos e carinho que sinto por todos, pois foi com uma grande alegria que no dia 10 de Maio participei numa festa convívio, pois ao encontrar as pessoas que muito fizeram por mim e deram-me muitos motivos para que eu tivesse sido uma menina feliz, pois é por isso e muito mais que a minha alegria não tem palavras que possa contar o que senti e sinto.

Foi um encontro tão rico que vai ficar para sempre no meu coração.

A minha Aldeia já não é a mesma pois mudou como tudo muda: é próprio dos tempos; Mas no meu coração continua a mesma aldeia pequenina e cheia de beleza.

A minha aldeia não tem rios, nem serras, mas tinha montes e vales, é por tudo isto e pelo grande amor que tenho a tudo e a todos que as saudades cada vez maiores, levam-me cada vez mais a ter vontade de voltar àquela época onde fui tão feliz.

Tal como agora a minha aldeia, também tinha um Presidente, da junta, que muito deu para o seu crescimento, e muito fez, para melhorar a vida de todos os que lá moravam, pois foi no seu mandato, que a escola, e o arranjo das ruas, e das casas dessa época, que ainda hoje são a marca mais importante que de certo vai ficar pelos tempos.

Lembro-me muito bem de tudo o que falo, pois nessa época, era na aldeia pequenina do alto Alentejo, onde eu fui feliz, e o meu avô foi o senhor, Presidente, da junta de freguesia, para além de tudo o que fez, ofereceu o terreno, para construir a escola, aquela escola que ainda, é a mesma, de à 50 anos, que fez crescer muita gente, e mudou muitas vidas.

Mais de 50 anos já passaram, e tudo mudou, hoje a minha aldeia é algumas vezes maior, mas graças ao senhor, Presidente, da junta, pessoa que dedicou uma boa parte da sua vida há aldeia onde nascemos, pois só com tão grande dedicação, a nossa aldeia é aquilo que hoje temos, muito mudada mas sempre bela, sítio onde nunca me canso de ir, pois enquanto lá estou, sinto-me tão bem comigo, e são tão vivas as recordações, que até me esqueço de tudo, de tal forma que sou capaz de ser feliz, quando o meu pensamento, se lembra de fazer boas e longas viagens ao passado, então, ai esqueço tudo e só me lembro da bonita felicidade, que nunca posso esquecer, é com muito gosto que falo, do senhor, Isidro Lobo, pessoa a quem dedico uma boa amizade, e dou os meus sinceros parabéns, por tudo o que tens feito, e por o que possas fazer, Isidro, obrigado, por tudo o que és, e por teres um coração com tanto para dar.


EU GOSTO DE SONHAR

 


Desde bem pequenina, que me lembro, como era bom para mim sonhar, pois era através dos meus bonitos sonhos, que eu fazia, longas viagens, e fantasiava, tudo aquilo que gostaria de ser e de ter eram tantas coisas, que eu nem me dava conta, pensava eu, que os meus bonitos sonhos iam todos ser realizados, mas a verdade é que sonhar é fácil, mas viver, muitas vezes e neste mundo que temos, todos os dias da nossa vida, somos obrigados a viver com algumas desilusões.

Foram tantos sonhos, que era impossível realîzá-los, todos, fui sempre uma criança com muita vontade de viver, e dizia para mim própria quando eu for grande tenho que saber ler e escrever, tenho que trabalhar, quero ter a minha casa, quero casar e ter filhos, quero conhecer o mundo, as pessoas, quero ir ao encontro da vida.

Tudo isto e muito mais fez companhia ao meu crescimento, quando ouvia ler histórias de fadas, e de príncipes, encantados eu desejava ser a princesa, e viver o amor que a história me contava, na das fadas, eu também cria ser a fada madrinha para ter todos os poderes e por magia fazer o mundo feliz.

É com certa mágoa que hoje tenho que dizer que muitos sonhos ficaram pelo caminho, mas a verdade é que também muitos foram realizados.
Sei que para uma pessoa com o meu problema nada é fácil, a minha vida tem sido feita de encontros e desencontros, mas nem por isso eu deixo de amar tudo o que me rodeia, tenho 57 anos, de muita luta e desencantos, de sonhos terminados em pesadelos, mas também tenho muitos sonhos que feitos realidades que muito contribuem para a minha felicidade e bem estar.

Com todos os encantos e desencantos, eu quero continuar a ser a mesma sonhadora, porque só assim poço ter e dar aos outros alguma alegria e felicidade.

As vezes as pessoas não sabem, que o sonho comanda a vida e dá força para viver.

Vem muitas vezes, ter comigo, a lembrança daquela bonita época, que vivi até aos meus 13 anos, naquele tempo tudo para mim foi um sonho, tudo tinha vida e cor, tudo era vivido com alegria, e muita felicidade.

Hoje dos meus avós e dos meus tios, paternos que já não estão neste mundo, resta-me uma grande e profunda saudade, de tudo o que me deram e me ensinaram a dar, tenho a certeza que onde estiverem estão a zelar por mim, pois sei que vou continuar a ser a sua menina.

Menina que se fez mulher, e tudo para ela, na vida mudou, os sonhos passaram a ser realidades, umas muito boas, outras de fazer doer a alma, e chorar o coração.

Mas mesmo assim nunca deixou nem nunca vai deixar de lutar, porque viver vale a pena.

Generosa

A MINHA HISTÓRIA DE VIDA



A MINHA HISTÓRIA DE VIDA



Às 15 horas e 30 minutos do dia 16 de Abril de 1951, começou a história da minha vida, pois foi nesta data que vim ao mundo, sendo filha, neta e também sobrinha de uma família que sempre me deu muito amor e carinho.

Após o meu nascimento foi-me diagnosticado um glaucoma congénito que me causou grande sofrimento físico mas, nem por isso, deixei de ser uma menina feliz e muito amada e a quem todos tratavam por “Minha Menina”.

Até aos 12 anos vivi quase sempre com os meus avós e tios paternos, família de algumas posses que nunca deixou que me faltasse nada. De todos os meus familiares paternos e maternos só guardo amor e boas recordações. Tantas coisas se passaram na minha vida, tão positivas, que até nas menos boas era feliz.

Aos 13 anos, por força de algumas circunstâncias, fui para a companhia dos meus pais. A partir daí a minha vida mudou! Eles moravam em Lisboa e, se calhar, por motivos da vida, resolveram voltar para Évora onde ainda hoje moram. O meu pai tinha uma vida que o obrigava a estar muito ausente, embora nos visitasse com frequência, não nos faltando com o necessário para viver. A minha mãe estava sempre conosco. Nessa altura eu já tinha um irmão e uma irmã bem mais novos, era tal a diferença que a minha irmã me tratava por mãe.

Eu e meus irmãos mais novos

Fomos e continuamos a ser muito unidos embora, como é normal, cada um seguiu o seu caminho mas continuamos a ser uma família. Tenho cinco sobrinhos a quem dedico muito amor.

Saltando no tempo e, seguindo o caminho que me foi destinado, encontrei pessoas amigas que me ajudaram a ultrapassar dificuldades próprias da época, a ter uma vida activa e em sociedade: participar em festas, excursões, eventos religiosos era, para mim, levar amor, bens necessários e palavras de conforto aos menos favorecidos, fazia-me bem sentir-me útil.

Dei e recebi catequese nesta minha página da vida em que fiz muitas amizades e nunca a minha deficiência foi problema.

Nada me fez sentir diferente, ainda hoje as amizades duram e as saudades apertam. Estou a escrever e não consigo fazer a escolha que desejaria, pois haveria muito para contar; talvez uma dia eu ainda tenha tempo para dar a conhecer a tudo o que fiz e não fiz e gostaria de ter feito, onde não cheguei por não ter condições para ir.

            Agora chegou o momento de falar de um dos grandes dias da minha vida: foi a 31 de Maio de 1964 (Domingo). Que dia tão desejado quando me foi anunciado o acontecimento, lembro-me de acordar cedo e com um desejo enorme que chegasse a hora e, pelas 10h30m deste Domingo, apadrinhada, pelas minhas amigas e amigos recebi, pelo Senhor Bispo de Évora o Sacramento do Crisma e Profissão de Fé. Senti uma tão grande felicidade que não tenho forma de traduzir, com palavras, o que senti. Foi um dia inesquecível, como eu tenho saudades…


O dia do Crisma e da Profissão de Fé – 31 de Maio de 1964

A Igreja de N.ª Sr.ª do Carmo está situada no largo das Portas de Moura, local muito visitado e apreciado nomeadamente pela sua arquitectura e beleza pois ali está uma das fontes que Évora tem para mostrar. A Igreja do Carmo é um monumento muito antigo e dono de uma grande beleza. Foi lá que passei muitas horas da minha vida rodeada de muitas atenções e conforto. Talvez por isso fosse a Igreja que escolhi para me casar.


Esta imagem representa as Portas de
Moura, largo onde se encontram alguns
edifícios de grande beleza arquitectónica,
nomeadamente o Paço Episcopal, Igreja do
Carmo e Tribunal Judicial de Évora.

Finalmente chegou a hora de realizar o sonho que até ali era o que mais desejava que acontecesse: aprender a ler e a escrever em Braille. Por ter nascido invisual não podia frequentar a escola dita normal porque o próprio sistema político o não permitia! Eu nem queria acreditar que, sabendo ler e escrever, era a realização de um sonho que me ia dar a minha independência para poder trabalhar – era uma porta que se abria para o mundo. Foi graças a um amigo que tudo isto aconteceu. O tempo foi passando e ninguém foge ao seu destino, ou seja, tiro quarta classe logo de seguida, com 17 anos . Depois de lutar contra muitas dificuldades fiz o meu exame na Direcção Escolar em Évora. Para mim era mais uma conquista…

A par disto começaram os sonhos e as muitas ilusões, que hoje acho serem próprias nestas idades. A palavra felicidade é tão fácil de dizer que até acreditamos nela. E foi atrás de um suposto amor, que aliás nunca existiu e, contra a vontade de meus pais, me casei aos dezoitos anos, com aquele que me proporcionou o facto de saber ler e escrever, pura gratidão? Talvez… Facto é que a 18 de Outubro de 1969 casei na Igreja de N.ª S.ª do Carmo, em Évora.


                           Eu, no dia do casamente em 18/10/1969

Teria sido para mim um dia inesquecível e o começo de uma nova vida para durar até que Deus nos separasse. A verdade é que nada foi assim, tudo terminou mal para todos. O meu casamento durou cerca de 15 anos, um período de vida remando contra a maré, talvez por incompatibilidades de feitios ou formas diferentes de estar na vida. Não vou falar mal nem bem, pois tudo acabou. Resta-me a alegria de ser mãe de dois filhos, que adoro, e por quem sempre lutei e dei tudo o que pensava ser melhor para eles. Como em tudo devo ter falhado em muitas coisas mas, em consciência, fiz o meu melhor, pois lutei sempre para que tivessem uma vida igual a qualquer criança da sua idade:


Os meus dois filhos na altura do meu divórcio
Aos dezanove anos chegou o primeiro emprego (operária fabril) que durou cerca de um ano, tempo que nunca vou esquecer pois era o começo de alguma independência. Foi o meu 1.º ano de trabalho onde fui bem recebida e aprendi uma vida nova pois, quando me desloquei à fábrica para pedir trabalho, levaram-me à direcção onde reiterei o meu pedido de admissão na fábrica. Foi-me perguntado o que é que eu sabia fazer, eu respondi “nada”! E pedi que me dessem uma oportunidade.

Passadas duas semanas fui chamada para trabalhar no turno da noite. A minha alegria foi tal que não encontro forma de me explicar. No mesmo turno trabalhava uma prima minha, tudo estava bem para mim pois era ela a minha companhia e me ajudava nas deslocações. Ainda hoje a nossa amizade é como se fôssemos duas irmãs. No primeiro dia tudo, para mim, era estranho, fui trabalhar com uma máquina de núcleos para bobines. Confesso que tudo para mim foi fácil e muito interessante, naquele trabalho fui a única a tirar prémio de produção.

Lembro-me de um dia um chefe alemão me ter dado um grande elogio que me deixou a chorar, disse-me ele que não ver era bom; para falar não precisava de parar o trabalho pois, pessoas como eu, a saber trabalhar, só davam lucro. Confesso que, na altura, não percebi o que ele me queria dizer, mas o tempo foi passando e eu aprendendo; a minha passagem por aquela fábrica foi tão rica em experiências para a minha vida que se voltasse a encontrar esse senhor ía agradecer-lhe o elogio.

Passado um ano de fortes emoções laborais, pela positiva, por pedido feito ao Sr. Presidente da então Caixa de Previdência de Évora, foi com a sua ajuda que entrei como telefonista em 4 de Outubro de 1961. Foi um trabalho que me deu muito gosto fazer.

Aprendi muito mais e entrei num mundo diferente e de grande responsabilidade pois, para além do serviço normal, também fazia o trabalho telefónico do Sr. Presidente. Isso exigia de mim muitas horas de serviço, tinha dias de entrar às nove horas e sair depois da meia-noite; mas fazia o que gostava; deu para conviver com todas as classes sociais, pois foi uma experiência inesquecível e de uma grande riqueza.

Mas a luta era grande e eu tinha de vencer pois, para ficar efectiva, o Ministério exigiu-me como habilitações o ciclo preparatório, tirado em dois anos. Foi mais uma batalha complicada, mas eu tinha que ganhar pois dela dependia o meu trabalho, certo é que nunca vou esquecer a ajuda de alguns bons amigos que estão para sempre guardados no meu coração. A colaboração muito especial da minha mãe e dos meus filhos que me deram a possibilidade e muito me ajudaram nas minhas deslocações pois, por ser invisual, não ando sozinha.

Fui telefonista seis anos, vivi e convivi com muitas pessoas e situações, umas boas outras menos mas, no meu tempo, foi o que mais gostei de fazer.

Em 1977, através de cursos e concursos dados na instituição e por mim frequentados com a grande e preciosa ajuda dos meus colegas, passei para a carreira administrativa. Pelo mesmo processo fui evoluindo na categoria; passei a trabalhar na correspondência, pois era o que mais se adaptava às minhas limitações. Embora não gostasse do que fazia tentei sempre dar o meu melhor e tudo o que sabia e podia; tive a sorte de encontrar bons amigos e colegas; tenho a certeza que ficou muito por fazer por faltas de meios técnicos compatíveis com os deficientes visuais, no entanto, tenho a consciência de que dei o meu melhor e tive de ser eu a adaptar-me ao trabalho que me era destinado, embora nunca tenho tido a oportunidade de realizar os meus objectivos porque as portas estavam quase sempre fechadas.

Foram mais de trinta anos da minha vida que, em troca do meu trabalho e dedicação, recebi de todos o que qualquer pessoa gosta de receber: respeito e muita solidariedade; fiz bons amigos e lembro-me de alguns com muita saudade. Hoje já estou aposentada e assim chegou ao fim a minha vida na Segurança Social de Évora, opção que fui obrigada a tomar pela minha própria dignidade, pois tudo ia mudar. Chegaram as novas tecnologias o que, para mim, era um mundo novo e totalmente desconhecido e sem meios para o conhecer, nestas condições eu ia deixar de ser a funcionária que era pois sei que ninguém pensou em mim, é com grande tristeza e amargura que digo de mim para mim “Não é justo tudo isto ter acontecido comigo, por que é que os deficientes têm de ser tratados desta maneira?”

Nunca tive resposta mas também nunca perdi a esperança de um dia poder entrar neste mundo novo de que tanto ouço falar e também muito leio com grande curiosidade e vontade de aprender pois sei que as tecnologias de hoje são, para mim e para todos, como um grande contributo para uma vida diferente com a possibilidade de chegar e de fazer coisas que nos ajudam todos os dias a viver o nosso dia-a-dia de maneira diferente e muito melhor.

Continuando a falar de alguns dos acontecimentos que mais me marcaram volto uns anos atrás no tempo para dizer, aos meus 33 anos fui, por força do destino, obrigada, talvez, a tomar a decisão mais complicada e difícil de tomar: o fim do meu casamento. Uma vida que falhou, um sonho que terminou em pesadelo, pois havia dois filhos a quem tudo tinha que ser bem explicado porque, abdicar deles, seria impossível. Há coisas tristes que nos marcam fortemente, pois há decisões que, quanto mais tarde se tomam, mais complicadas ficam, só podia ser assim.

No dia 15 de Outubro de 1984, deixei a minha casa, levando comigo os meus dois filhos, situação que eles aceitaram com uma grande compreensão. Fomos viver os três para uma casa cedida por um casal amigo e lá vivemos até eu ganhar a tutela definitiva no decorrer do meu divórcio. Enquanto isso eles estavam com o pai sempre que queriam. Não foi tarefa fácil, tive de entregar o caso a um advogado que me ajudou muito e que se interessou pela situação.

O tempo foi passando e deixando algumas marcas, como não podia deixar de ser. Resta-me o conforto dos meus filhos me terem sempre apoiado e, ainda hoje, já homens, somos uma família unida pelo amor e dedicação.

Depois de algum tempo surgiu na minha vida uma nova oportunidade de mudança de alguém que me trouxe amor e esperança de uma vida diferente, para mim e para os meus filhos. Foi uma decisão bem pensada de que nunca me arrependi.

A 7 de Dezembro de 1996 voltei a casar e fiquei muito feliz quando os meus filhos, já homens manifestaram o desejo de serem os padrinhos. Hoje, eu e o meu marido temos a nossa casa própria, vivendo um para o outro, juntos no bem e no mal. Somos uma família sempre perto, mesmo estando longe. Tentamos ser felizes e aceitar com boa disposição tudo o que a vida nos dá.


O meu segundo casamento em 07/12/1996

Temos um netinho de 5 anos que nos dá muita força e nos é muito dedicado, quando está junto de nós é a nossa alegria. O amor que sentimos por ele não tem explicação. Tenho muito amor pela minha família e peço todos os dias a Deus força para vencer as dificuldades e lhes poder dar segurança e alguma felicidade, o que não é nada fácil.

O nosso neto (Guilherme) de 5 anos de idade

São 19h30m do dia 29 de Janeiro de 2008, vou agora e, porque me foi sugerido, falar um pouco dos meus filhos e do meu neto, três pessoas a quem dedico a maior parte da minha atenção e amor. São a minha grande preocupação pois é por eles que luto a pensar no futuro, e tenho muitas vezes medo nem sei de quê!
Fui sempre uma mãe atenta, talvez até demais, tentei que tivessem uma vida igual a todas as crianças da sua idade. Eram eles que, muitas vezes, me diziam para não me preocupar.

Os meus filhos nunca me fizeram perguntas nem falaram da minha deficiência. Hoje, ambos são homens e cada um já tem a sua vida própria, foram sempre e continuam a ser dedicados e atentos comigo. Sempre tive, com os meus filhos, uma relação muito forte e profunda. Falamos e partilhamos a nossa vida de tal forma que me esqueço de quem sou e passo, naqueles momentos, a ser a amiga e conselheira. Como sempre, desde bem pequenos, ainda estão comigo sempre que seja necessário pois dão-me todo o apoio que lhes é possível. Cada um seguiu o seu caminho, mas como uma família unida.

                                             
                                                                         Filho mais velho              

                                              
                                                                  Filho mais novo (pai do neto)

O Luís tem 36 anos e o Paulo 33 e já é pai. Dia 26 de Março de 2002 foi um dos dias de grande felicidade, fui avó. Não há forma nem palavras que expliquem o que senti a partir desse dia. Muita coisa mudou nas nossas vidas! O Guilherme tem 5 anos e desde que nasceu deu-nos tudo o que nos faltava. Adora o avô e estar connosco. Tivemos o privilégio de o acompanhar de perto pois, quando está na nossa companhia, mostra uma tão grande felicidade que nos enche a alma e nos aquece o coração.

O Gui é um menino muito inteligente e curioso, temos grandes conversas e boas brincadeiras, pois tudo lhe desperta a atenção e tem de ter um porquê. Numa das nossas muitas conversas, perguntou-me ele “avó, tu és cega, não és?” E eu respondi: “sou, mas não faz mal, a avó gosta muito de ti, não fiques triste porque é só um doi-doi”, e ele respondeu: “avó, o Gui gosta muito de ti, vai ajudar-te e vai ser sempre teu amigo”. “Não fiques triste, está bem”?, “quando o Gui ser um homem como o pai, compra um carro e leva-te para passear e quando tu tiveres dói-doi diz ao Gui que eu digo ao Dr. que as avós e os avôs não podem estar doentes”.
As nossas conversas são longas e são muitas as nossas brincadeiras, acabam sempre com um grande e forte abraço e beijinhos sem conta. O nosso neto surpreende-nos todos os dias 
Generosa Batista. 
  Março de 2008  .


 




LEMBRANÇAS DE ÉVORA




Há mais de quarenta anos que me fiz mais uma habitante desta bela cidade museu, que me encantou com a sua história e beleza de encantar qualquer pessoa, Também eu tal como ela fiz por cá a minha história.
São 45 anos de uma vida cheia de tantas coisas boas tão boas, que não resisto a lembrar algumas, das muitas por onde passei, quando cheguei a esta bela cidade, tinha a penas 13 anos pois até então vivi quase sempre com os meus avós, e tios paternos.
Como eu não me canso de dizer, e muito menos de pensar, fui uma menina feliz, pois na minha Aldeia era a menina da minha gente, falo daquela gente, que sempre me deu tudo o que não tinha, para eu ser feliz, que me ensinou a dar, e receber, e com a sua humildade e amor aprendi o sentido da vida.

Nasci acompanhada, de um glaucoma que sempre me causou grande sofrimento, e ficou cada vez mais complicado até que chegou à cegueira total, mas nem por isso fez de mim uma criança infeliz, sempre recebi muito amor e dedicação, à minha volta só havia, ternura e carinho, tudo era feito de maneira que eu não me lembrasse do meu sofrimento físico, que sempre foi e continua a ser, muito grande, aos meus 26 anos, a minha doença complicou de tal maneira, que foi obrigada a tirar o olho esquerdo, e como tudo foi piorando aos 37 anos tive de passar pelo mesmo, pois foi-me tirado, o olho direito, poço dizer que passados quase 30 anos, ainda não sou capaz de lidar com esta situação, ainda hoje tenho muitos momentos de grande revolta, mas tento que as pessoas não percebam as minhas fraquezas, e por isso e muito mais não vou deixar de lutar, nem de gostar da vida, nem das pessoas que amo, pois é por mim e pela minha família que eu vou continuar a amar a vida.

Na casa dos meus avós os dias passavam entre boas e bonitas brincadeiras, com as minhas amiguinhas, e também com algumas das minhas primas maternas, a quem ainda hoje, dedico uma grande e bonita amizade, que de certo irá até ao fim das nossas vidas, gostávamos de conviver junto da natureza, ermos para o campo apanhar flores e com elas fazer lindos colares e outros enfeites que muito nos divertiam, também recordo os apetitosos lanches, que a minha tia Naica, nos fazia e nos sabiam mais que bem, a minha tia Anica era uma velhinha que também morava, no monte dos meus avós, monte que antes tinha sido dela, a tia Ana Pereira foi sempre muito querida para mim, e tratava me com grande amor e dedicação, pois fez de mim a herdeira de tudo o que tinha da sua filha que por doença desconhecida, morreu era ainda uma criança, só lamento, quando fiquei mulher, já não ter nada nem saber para onde foram todas as coisas que com tanto amor me ofereceu.
Lembro-me com saudade, das minhas idas para a escola só para conviver mas mesmo assim era para mim um dos bocadinhos felizes, em quanto todos faziam e aprendiam, os trabalhos da escola, eu a penas podia decorar as lições, que eram lidas pela professora, mas para mim foi uma felicidade, pois quando voltava para casa, sabia tudo na ponta da língua, todos ficavam contentes, e ainda me ajudavam mais, também algumas vezes passava bons bocadinhos com algumas professoras que de vez em quando ficavam na casa dos meus avós, porque nessa altura, o meu avô por mérito próprio era, o Presidente da junta de freguesia, da Graça do divor, e por isso foi o meu avô, que mandou construir a escola cedendo para isso o terreno, que fazia parte da sua propriedade, tudo o que vivi eu nunca poço esquecer, também não posso esquecer as saudades que tenho de quando me sentava no campo acompanhada pelo meu amigo cão, falo do senhor pangalhadas, uma personagem que durante muitos anos fez parte importante da minha história, pois era quase sempre com ele que eu ia, para com muita atenção ouvir o barulho da natureza, e o cantar dos passarinhos, que muito alegravam as minhas manhãs, e também os meus fins de dia, lembro-me como era lindo o nascer e pôr do sol, pois nesse tempo eu ainda via alguma coisa, embora pouco, mas dá para lembrar e recordar toda a beleza que me rodeava, na época em que nasci a minha cegueira era considerada uma doença muito grave, pois não havia esperança de melhoras, e muito menos de cura, mas nem por isso os meus primeiros 13 anos deixaram de ser os melhores anos da minha vida, também não poço esquecer, uma das pessoas, que nessa altura foi para mim, talvez a mais importante, lembro-me com muita saudade, do carinho com que sempre me tratava, lembro-me dos serões de Inverno, sentado a lareira, comigo ao colo, tinha sempre uma história, para me contar, ou então cantávamos os dois as cantigas daquele tempo, que ainda hoje muito gosto de ouvir, falo do meu avô, que nesse tempo era pessoa, a quem todos tinham respeito, foi um homem justo e de bom coração, toda a gente tinha por ele um grande respeito, e afeição, lembro-me das suas palavras quando me dizia para eu não chorar, porque me fazia dói-dóis, e ele ficava triste, como eu me lembro do calor do seu colo, dos seus abraços, e dos seus beijinhos, sem conta, também me lembro como me sentia forte quando o meu avô, me dizia, não tenhas medo, minha querida, o avô, está aqui, e nada nem ninguém te vai fazer mal, era com o meu avô, e com os meus tios que quase sempre andavam comigo ao colo, e não se cansavam de me encher de carinhos, eu fui sempre a sua menina, falo do meu querido avô, que recordo e guardo para sempre no meu coração, tenho a certeza, se ele me estiver a ver, está feliz e orgulhoso da sua menina.



Pouco tempo depois de chegar a Évora tive a sorte de conhecer grandes e bons amigos, que muito me ajudaram a ir ao encontro do desconhecido, foi pois assim que começou um dos bonitos capítulos de que ainda hoje recordo com saudade, pois fui convidada para cantar no grupo coral da Igreja do Carmo daí foram-se abrindo portas e chegaram outras coisas que gostei muito de fazer, fui também levada para a legião de Maria, trabalho que adorei fazer, pois havia de tudo um pouco dedicado aos menos protegidos pela sorte, durante alguns anos fiz parte de um grupo de bons e dedicados amigos, que me mostravam todos os dias que a vida deve ser igual para todos, assim me foi dada a oportunidade de participar em festas, acampamentos, visitas a hospitais, e a casas de pessoas a quem a vida não deu o privilégio do bem estar, por isso vivendo menos bem, levando alguns bens necessários para uma vida um pouco melhor, e com algum conforto, cuidar, e ajudar as crianças que por razões várias ou pouca sorte não tinham nada nem ninguém, que lhes desse o que qualquer criança tem o direito de ter.

Lembro-me dos bonitos teatros, e das festas em que colaborava, umas vezes a cantar outras a representar, sempre que chegava aquele momento sentia-me muito nervosa mas depois de entrar em palco tudo corria bem, e acabava muito melhor, deixando-me alegre e feliz, pois esses inventos eram sempre dedicados aos que viviam menos bem e tudo o que recebíamos era muito bem vindo.

Mas também tive algumas coisas, más muito más, feita de grandes lutas, algumas bem complicadas mas tenho que todos os dias agradecer a Deus e à oportunidades que a vida me deu e também há minha família e amigos de que muito gosto, alguns já ficaram pelo caminho, e eu continuo a lembra-los com muita saudade e estão bem guardados no meu coração para sempre e depois vêem as recordações, algumas de cair a lágrima outras de rir de felicidade pois foi aqui que tudo começou na minha vida de verdade, foi aqui que encontrei pessoas muito importantes para mim, porque sempre estão ao meu lado nos bons e maus momentos.

Foi nesta bela cidade que encontrei o meu caminho, cheio de coisas bem diferentes umas das outras mas por todas elas valeu a pena e vou continuar a lutar porque amo a minha família, e amo muito todas as crianças do mundo o meu maior desejo era fazer os nossos meninos e meninas bem felizes, pois quero para elas um mundo com paz e muita saúde, sei que quando eu for embora de vez deixo muitas coisas por fazer que gostava de ter feito, mas também fiz muitas coisas que me deram muita alegrias e bem estar.

Hoje sou uma pessoa preocupada com o futuro das nossas crianças, pois sou mãe e avó, foi alguns anos que nasceram aqui os meus filhos e o meu neto, 3 pessoas a quem amo de tal forma, que não é fácil encontrar palavras que transmitam os meus sentimentos, são sem duvida as pessoas, mais importantes para mim, embora com os meus filhos nem sempre estou de acordo com coisas das suas vidas, hoje eles já são homens e donos da sua vontade; a verdade é que os filhos para as mães, não têm idade, nem defeitos, para as avós os netos são perfeitos, quem ama erra e eu sei que cometo erros por quem muito amo, pois são a maior razão da minha vida.

Também os meus sobrinhos de quem muito gosto, e desejo o maior bem, pois também, sinto que eles me dedicam um grande carinho.

Foi em 1964, que aqui também nasceu, um dos meus grandes amores, pois, vou falar um pouco de uma pessoa muito importante para mim, temos 14 anos de diferença, por isso sinto nela a filha que não tive, mas decerto gostaria de ter, falo da minha irmã, pois tenho por ela um tão grande amor, que me lembro com saudade dos tempos em que ela me chamava Mãe, hoje ambas somos adultas e cada uma tomou o seu caminho, mas nem por isso deixamos de ser o que sempre fomos, pois nada nos vai separar, temos diferentes formas de pensar e de estar, mas nada nos impede de sermos o que somos, duas irmãs, duas grandes e boas amigas, pois para mim a minha irmã, continua a ser a minha menina muito querida, a minha maior amiga, só tenho pena que ela não seja mais presente, mas cada um é igual a si mesmo.

Agora falo do meu irmão, que também amo muito, e que com muita pena de todos fez a escolha errada pois deixou tudo em troca de nada, resta-nos a esperança, que ele acorde e volte a ser o que sempre podia ter sido, fez tantas coisas erradas na vida, talvez nem ele saiba porquê.

Somos 3 filhos de uns pais que nos trataram de maneiras muito diferentes, ainda hoje eu não entendo por qual a razão de ser nem qual o motivo, o meu pai tem quase 80 anos, e ainda hoje eu tenho momentos em que penso que o meu pai nunca me amou como uma filha, nem dedicou grande atenção ao meu tão grave problema, só peço a Deus que me dê o seu perdão, se estiver errada, o meu pai é, uma pessoa de sentimentos escondidos, e amores preferidos, que não sabe dar afectos, nem transmitir o que sente, pelos outros ou até mesmo por si próprio, pessoa fria que finge não perceber, o que está à sua volta, está fechado nele mesmo caindo cada vez mais ficando velho e perdendo a autoridade e arrogância, com que gostava de tratar os mais fracos, porque teria sido assim, acho que nem ele sabe responder a essa pergunta.

A minha Mãe é uma mulher de uma grande riqueza de sentimentos, e de um grande coração, tem nesta altura 78 anos, muito sofridos e amargurados, companheira do meu pai há 58 anos a quem deu tudo o que tinha em troca de quase nada, hoje resta aos dois uma vida mal vivida e a maior parte cheia de más recordações, e de coisas que só lhe fazia bem esquecer, lembro-me quando era menina que a minha mãe me lia histórias e eu gostava tanto de ouvir a minha mãe ler para mim, que nunca vou esquecer esses bocadinhos que recordo com muita saudade e ficam para sempre no meu coração, nessa altura a minha mãe era uma jovem, de grande beleza, nas suas atitudes, de bondade, a minha mãe ainda hoje está plantada no vazo onde tenho todos os meus amores perfeitos, todos gostavam dela e sempre lhe deram muito valor, pobre mãe, pobre pai, que nem percebem que os filhos os amam e sofrem por velos nesta estranha e má forma de vida, mas o pior é que não podemos fazer nada, resta pedir a Deus que não os deixe sozinhos.

Desejo a todos uma vida feliz foi também há muitos anos que entrei na vida do trabalho nesse tempo para uma pessoa cega não era tarefa fácil e por isso foi um pouco complicado, mas a minha força, e necessidade, deram-me a coragem necessária para nunca deixar de lutar por tudo o que vale a pena, com muitas barreiras e portas mal abertas, mas o meu bom Deus a minha força e alguns amigos e a minha família, foram para mim de grande valor a ajuda, E eu por mim e pelos meus filhos, pelo meu neto, pelo meu marido, quero continuar a lutar e a viver por isso peço a Deus que sempre me dê forças e vontade de lutar e ter alegria para dar a toda a gente que precisa de mim. Não me conformo com a mudança dos tempos e muito menos com a das vontades, a menina vida não devia esquecer os menos protegidos pela sorte, nomeadamente as nossas crianças que não têm culpa de nada, só me resta a grande fé e a esperança que tenho no meu bom Deus.

Generosa 10 de Junho de

À DIAS

 




Hoje é mais um dia da minha vida será um dia igual a muitos? Certamente que não, pois eu acho quero bem e no mal nunca a dias iguais e é isso que nos ajuda entender e aceitar tudo o que nos rodeia, as coisas da vida, e os pedaços do mundo, e porque a vida é mesmo assim, feita de tudo um pouco é por tudo isso que nós temos de lutar todos os dias contra o mal, para vencer o bem, e ter em cada dia um mundo melhor para todo e muito melhor para as nossas crianças que tanto sofrem por elas que eu peço todos os dias a Deus que as proteja e lhes dê uma vida diferente sempre para melhor.

Eu sou Mãe, de dois filhos, dois filhos, a quem tenho tentado dar o que poço, ou talvez, não, pois para alguns filhos, os pais, quase nunca tem razão, mas em consciência tenho sempre feito o meu melhor, sei que nem sempre tudo bate certo, mas nada me faz medo, por muito que me doa tumar algumas decisões, tenho a certeza que são para o seu bem, também sei que os meus filhos não gostam de muitas coisas que eu faço, muitas vezes sou mal julgada e até condenada.

A verdade é que não vemos a vida de forma igual, mas não é por isso que eu vou deixar de ser quem sou, nem de fazer a vida da como eu entendo que devo fazer, desde que nasceram que os meus filhos foram e são a grande razão da minha vida pois são eles os dois atilhos, que mais me prenderam ao mundo, mas penso eu, que não é preciso estar de acordo com tudo o que querem para lhes mostrar a grandeza do nosso amor e ainda que seja longe estou sempre ao seu lado, para o bem, e para o mal, todos os dias da minha vida.

Também já tenho, a felicidade de ser avó, de um menino que tem 6 anos, também ele é um atilho que me traz segura ao mundo, pois entre nós há um grande e profundo amor, mas quer o destino, e não só, que seja muito pouco, o tempo que podemos estar juntos, mas o Guilherme vai crescer, e eu tenho fé que tudo venha a mudar, tem dias, que a saudade aperta de tal forma que faz chorar o coração, mas tem que ser assim, pois não devo dizer nada resta-me esperar dias melhores.
E é com o grande amor, que tenho à minha família, que eu peço, a paz entre os homens de boa vontade, e porque tudo isto faz parte da vida, eu mesmo assim gosto muito de viver.

Generosa 24 de Maio de 2008

O DIA MAIS BELO


QUAL É?

 

O DIA MAIS BELO? Hoje

O maior OBSTÁCULO? O MEDO


A RAIZ DE TODOS OS MALES? O EGOÍSMO


A pior derrota? O DESÂNIMO


Primeira necessidade? Comunicar


O maior mistério? A morte


A pessoa mais perigosa? A mentirosa


O presente mais belo? O perdão


A rua mais rápida? O caminho certo


A orientação mais eficaz…? O sorriso


A maior satisfação? O dever cumprido


As pessoas mais necessárias? Os pais


A coisa mais fácil? Errar


O maior erro? Baixar os braços


Os melhores professores? As crianças


O que nos faz mais felizes? Ser útil ás pessoas


O pior defeito? O mau humor


Pior sentimento? O rancor


O mais imprescindível? O lar


A força mais potente do mundo? A fé


A mais bela de todas as coisas? O AMOR

ÉVORA

 

 

Évora

Há mais de quarenta anos que me fiz mais uma habitante desta bela cidade museu, que me encantou com a sua história e beleza de encantar qualquer pessoa, Também eu tal como ela fiz por cá a minha história.
São 45 anos de uma vida cheia de tantas coisas boas tão boas, que não resisto a lembrar algumas, das muitas por onde passei, quando cheguei a esta bela cidade, tinha a penas 13 anos pois até então vivi quase sempre com os meus avós, e tios paternos.

Como eu não me canso de dizer, e muito menos de pensar, fui uma menina feliz, pois na minha Aldeia era a menina da minha gente, falo daquela gente, que sempre me deu tudo o que não tinha, para eu ser feliz, que me ensinou a dar, e receber, e com a sua humildade e amor aprendi o sentido da vida.
Nasci acompanhada, de um glaucoma que sempre me causou grande sofrimento, e ficou cada vez mais complicado até que chegou à cegueira total, mas nem por isso fez de mim uma criança infeliz, sempre recebi muito amor e dedicação, à minha volta só havia, ternura e carinho, tudo era feito de maneira que eu não me lembrasse do meu sofrimento físico, que sempre foi e continua a ser, muito grande, aos meus 26 anos, a minha doença complicou de tal maneira, que foi obrigada a tirar o olho esquerdo, e como tudo foi piorando aos 37 anos tive de passar pelo mesmo, pois foi-me tirado, o olho direito, poço dizer que passados quase 30 anos, ainda não sou capaz de lidar com esta situação, ainda hoje tenho muitos momentos de grande revolta, mas tento que as pessoas não percebam as minhas fraquezas, e por isso e muito mais não vou deixar de lutar, nem de gostar da vida, nem das pessoas que amo, pois é por mim e pela minha família que eu vou continuar a amar a vida.

Na casa dos meus avós os dias passavam entre boas e bonitas brincadeiras, com as minhas amiguinhas, e também com algumas das minhas primas maternas, a quem ainda hoje, dedico uma grande e bonita amizade, que de certo irá até ao fim das nossas vidas, gostávamos de conviver junto da natureza, ermos para o campo apanhar flores e com elas fazer lindos colares e outros enfeites que muito nos divertiam, também recordo os apetitosos lanches, que a minha tia Naica, nos fazia e nos sabiam mais que bem, a minha tia Anica era uma velhinha que também morava, no monte dos meus avós, monte que antes tinha sido dela, a tia Ana Pereira foi sempre muito querida para mim, e tratava me com grande amor e dedicação, pois fez de mim a herdeira de tudo o que tinha da sua filha que por doença desconhecida, morreu era ainda uma criança, só lamento, quando fiquei mulher, já não ter nada nem saber para onde foram todas as coisas que com tanto amor me ofereceu.

Lembro-me com saudade, das minhas idas para a escola só para conviver mas mesmo assim era para mim um dos bocadinhos felizes, em quanto todos faziam e aprendiam, os trabalhos da escola, eu a penas podia decorar as lições, que eram lidas pela professora, mas para mim foi uma felicidade, pois quando voltava para casa, sabia tudo na ponta da língua, todos ficavam contentes, e ainda me ajudavam mais, também algumas vezes passava bons bocadinhos com algumas professoras que de vez em quando ficavam na casa dos meus avós, porque nessa altura, o meu avô por mérito próprio era, o Presidente da junta de freguesia, da Graça do divor, e por isso foi o meu avô, que mandou construir a escola cedendo para isso o terreno, que fazia parte da sua propriedade, tudo o que vivi eu nunca poço esquecer, também não posso esquecer as saudades que tenho de quando me sentava no campo acompanhada pelo meu amigo cão, falo do senhor pangalhadas, uma personagem que durante muitos anos fez parte importante da minha história, pois era quase sempre com ele que eu ia, para com muita atenção ouvir o barulho da natureza, e o cantar dos passarinhos, que muito alegravam as minhas manhãs, e também os meus fins de dia, lembro-me como era lindo o nascer e pôr do sol, pois nesse tempo eu ainda via alguma coisa, embora pouco, mas dá para lembrar e recordar toda a beleza que me rodeava, na época em que nasci a minha cegueira era considerada uma doença muito grave, pois não havia esperança de melhoras, e muito menos de cura, mas nem por isso os meus primeiros 13 anos deixaram de ser os melhores anos da minha vida, também não poço esquecer, uma das pessoas, que nessa altura foi para mim, talvez a mais importante, lembro-me com muita saudade, do carinho com que sempre me tratava, lembro-me dos serões de Inverno, sentado a lareira, comigo ao colo, tinha sempre uma história, para me contar, ou então cantávamos os dois as cantigas daquele tempo, que ainda hoje muito gosto de ouvir, falo do meu avô, que nesse tempo era pessoa, a quem todos tinham respeito, foi um homem justo e de bom coração, toda a gente tinha por ele um grande respeito, e afeição, lembro-me das suas palavras quando me dizia para eu não chorar, porque me fazia dói-dóis, e ele ficava triste, como eu me lembro do calor do seu colo, dos seus abraços, e dos seus beijinhos, sem conta, também me lembro como me sentia forte quando o meu avô, me dizia, não tenhas medo, minha querida, o avô, está aqui, e nada nem ninguém te vai fazer mal, era com o meu avô, e com os meus tios que quase sempre andavam comigo ao colo, e não se cansavam de me encher de carinhos, eu fui sempre a sua menina, falo do meu querido avô, que recordo e guardo para sempre no meu coração, tenho a certeza, se ele me estiver a ver, está feliz e orgulhoso da sua menina.



Pouco tempo depois de chegar a Évora tive a sorte de conhecer grandes e bons amigos, que muito me ajudaram a ir ao encontro do desconhecido, foi pois assim que começou um dos bonitos capítulos de que ainda hoje recordo com saudade, pois fui convidada para cantar no grupo coral da Igreja do Carmo daí foram-se abrindo portas e chegaram outras coisas que gostei muito de fazer, fui também levada para a legião de Maria, trabalho que adorei fazer, pois havia de tudo um pouco dedicado aos menos protegidos pela sorte, durante alguns anos fiz parte de um grupo de bons e dedicados amigos, que me mostravam todos os dias que a vida deve ser igual para todos, assim me foi dada a oportunidade de participar em festas, acampamentos, visitas a hospitais, e a casas de pessoas a quem a vida não deu o privilégio do bem estar, por isso vivendo menos bem, levando alguns bens necessários para uma vida um pouco melhor, e com algum conforto, cuidar, e ajudar as crianças que por razões várias ou pouca sorte não tinham nada nem ninguém, que lhes desse o que qualquer criança tem o direito de ter.

Lembro-me dos bonitos teatros, e das festas em que colaborava, umas vezes a cantar outras a representar, sempre que chegava aquele momento sentia-me muito nervosa mas depois de entrar em palco tudo corria bem, e acabava muito melhor, deixando-me alegre e feliz, pois esses inventos eram sempre dedicados aos que viviam menos bem e tudo o que recebíamos era muito bem vindo.

Mas também tive algumas coisas, más muito más, feita de grandes lutas, algumas bem complicadas mas tenho que todos os dias agradecer a Deus e à oportunidades que a vida me deu e também há minha família e amigos de que muito gosto, alguns já ficaram pelo caminho, e eu continuo a lembra-los com muita saudade e estão bem guardados no meu coração para sempre e depois vêem as recordações, algumas de cair a lágrima outras de rir de felicidade pois foi aqui que tudo começou na minha vida de verdade, foi aqui que encontrei pessoas muito importantes para mim, porque sempre estão ao meu lado nos bons e maus momentos.

Foi nesta bela cidade que encontrei o meu caminho, cheio de coisas bem diferentes umas das outras mas por todas elas valeu a pena e vou continuar a lutar porque amo a minha família, e amo muito todas as crianças do mundo o meu maior desejo era fazer os nossos meninos e meninas bem felizes, pois quero para elas um mundo com paz e muita saúde, sei que quando eu for embora de vez deixo muitas coisas por fazer que gostava de ter feito, mas também fiz muitas coisas que me deram muita alegrias e bem estar.

Hoje sou uma pessoa preocupada com o futuro das nossas crianças, pois sou mãe e avó, foi alguns anos que nasceram aqui os meus filhos e o meu neto, 3 pessoas a quem amo de tal forma, que não é fácil encontrar palavras que transmitam os meus sentimentos, são sem duvida as pessoas, mais importantes para mim, embora com os meus filhos nem sempre estou de acordo com coisas das suas vidas, hoje eles já são homens e donos da sua vontade; a verdade é que os filhos para as mães, não têm idade, nem defeitos, para as avós os netos são perfeitos, quem ama erra e eu sei que cometo erros por quem muito amo, pois são a maior razão da minha vida.
Também os meus sobrinhos de quem muito gosto, e desejo o maior bem, pois também, sinto que eles me dedicam um grande carinho.

Foi em 1964, que aqui também nasceu, um dos meus grandes amores, pois, vou falar um pouco de uma pessoa muito importante para mim, temos 14 anos de diferença, por isso sinto nela a filha que não tive, mas decerto gostaria de ter, falo da minha irmã, pois tenho por ela um tão grande amor, que me lembro com saudade dos tempos em que ela me chamava Mãe, hoje ambas somos adultas e cada uma tomou o seu caminho, mas nem por isso deixamos de ser o que sempre fomos, pois nada nos vai separar, temos diferentes formas de pensar e de estar, mas nada nos impede de sermos o que somos, duas irmãs, duas grandes e boas amigas, pois para mim a minha irmã, continua a ser a minha menina muito querida, a minha maior amiga, só tenho pena que ela não seja mais presente, mas cada um é igual a si mesmo.
Agora falo do meu irmão, que também amo muito, e que com muita pena de todos fez a escolha errada pois deixou tudo em troca de nada, resta-nos a esperança, que ele acorde e volte a ser o que sempre podia ter sido, fez tantas coisas erradas na vida, talvez nem ele saiba porquê.

Somos 3 filhos de uns pais que nos trataram de maneiras muito diferentes, ainda hoje eu não entendo por qual a razão de ser nem qual o motivo, o meu pai tem quase 80 anos, e ainda hoje eu tenho momentos em que penso que o meu pai nunca me amou como uma filha, nem dedicou grande atenção ao meu tão grave problema, só peço a Deus que me dê o seu perdão, se estiver errada, o meu pai é, uma pessoa de sentimentos escondidos, e amores preferidos, que não sabe dar afectos, nem transmitir o que sente, pelos outros ou até mesmo por si próprio, pessoa fria que finge não perceber, o que está à sua volta, está fechado nele mesmo caindo cada vez mais ficando velho e perdendo a autoridade e arrogância, com que gostava de tratar os mais fracos, porque teria sido assim, acho que nem ele sabe responder a essa pergunta.

A minha Mãe é uma mulher de uma grande riqueza de sentimentos, e de um grande coração, tem nesta altura 78 anos, muito sofridos e amargurados, companheira do meu pai há 58 anos a quem deu tudo o que tinha em troca de quase nada, hoje resta aos dois uma vida mal vivida e a maior parte cheia de más recordações, e de coisas que só lhe fazia bem esquecer, lembro-me quando era menina que a minha mãe me lia histórias e eu gostava tanto de ouvir a minha mãe ler para mim, que nunca vou esquecer esses bocadinhos que recordo com muita saudade e ficam para sempre no meu coração, nessa altura a minha mãe era uma jovem, de grande beleza, nas suas atitudes, de bondade, a minha mãe ainda hoje está plantada no vazo onde tenho todos os meus amores perfeitos, todos gostavam dela e sempre lhe deram muito valor, pobre mãe, pobre pai, que nem percebem que os filhos os amam e sofrem por velos nesta estranha e má forma de vida, mas o pior é que não podemos fazer nada, resta pedir a Deus que não os deixe sozinhos.

Desejo a todos uma vida feliz foi também há muitos anos que entrei na vida do trabalho nesse tempo para uma pessoa cega não era tarefa fácil e por isso foi um pouco complicado, mas a minha força, e necessidade, deram-me a coragem necessária para nunca deixar de lutar por tudo o que vale a pena, com muitas barreiras e portas mal abertas, mas o meu bom Deus a minha força e alguns amigos e a minha família, foram para mim de grande valor a ajuda, E eu por mim e pelos meus filhos, pelo meu neto, pelo meu marido, quero continuar a lutar e a viver por isso peço a Deus que sempre me dê forças e vontade de lutar e ter alegria para dar a toda a gente que precisa de mim. Não me conformo com a mudança dos tempos e muito menos com a das vontades, a menina vida não devia esquecer os menos protegidos pela sorte, nomeadamente as nossas crianças que não têm culpa de nada, só me resta a grande fé e a esperança que tenho no meu bom Deus.

Generosa 10 de Junho de 2008